Bibi Ferreira

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Publicado nesta página, em  10/07/08.

 

  Mídias onde o texto foi publicado (pesquisa na Internet):

Agora MS – Dourados – MS (08/07/08)

Bastidores do Poder - Cuiabá - MT (08/07/08)

Olhar Direto - Cuiabá - MT (09/07/08)

Wellness Club - BR - (11/07/08)

Tribuna Impressa - Araraquara - SP (11/07/08)

Boqueirão News - Santos - SP (19/07/08)

Jornal Mato Grosso do Norte - Alta Floresta - MT (19/08/09)

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Quando Bibi Ferreira surgia nos palcos da TV dos anos de 1960 era como se todo o cenário fosse pano de fundo, como se todos os demais artistas fossem coadjuvantes.

Qualquer texto, mesmo o mais simplório, adquiria ares solenes com sua voz vibrante e seu gestual elaborado. Sua Piaf é inigualável!

Era natural que tanta erudição transitasse do palco para a coxia, da atuação para a direção. E ela demonstrou também aí sua excelência. Mas, grande pecado o meu: eu nunca a vira atuar no teatro! Pecado, não: falta de oportunidades, que o passar dos anos tornou ainda mais esporádicas.

Aí, pelas mãos de Juca de Oliveira, ela voltou à ribalta para viver a esposa de um político corrupto, na comédia "Às favas com os escrúpulos". E lá fui eu me redimir.

Quando Bibi surgiu o silêncio só foi quebrado pelo tradicional tosse "made in" tabaco, do tipo que fazia o maestro Pernalonga exibir a placa "Joguem o barulho fora!". Isso não a incomodava, mas havia um problema: sua voz era baixa. Era preciso estar atento para ouvir suas falas.

De repente, alguns dos assistentes começaram a reclamar: "Som!". A equipe técnica parecia não reagir ao alerta e o alarido foi aumentando, até que uma voz foi ouvida mais forte: "Eu paguei para assistir e não estou ouvindo nada!".

Alguém poderia tentar contornar a situação reclamando diretamente à equipe técnica, mas haviam optado por manifestações que, embora justas, eram um pouco deselegantes para com aquela estrela, do alto de seus 86 anos. Qual seria a reação dela?

Bem, ela saiu algo consternada do palco, para voltar pouco depois, com a mão sobre os olhos, como se refletisse bastante sobre o que iria fazer. Perguntou à platéia o que estava havendo.

"Não estamos ouvindo nada!", foi a resposta.

Ela recuou até à escrivaninha que havia no cenário e minha mulher a ouviu murmurar: "É meu dever falar mais alto!", após o que, voltou a sair de cena.

A peça foi retomada e, como se absolutamente nada houvesse acontecido, Bibi retornou e deu um show de interpretação, bem como todos os demais atores. Ela emocionou, discursou, sofreu, riu, falou palavrões, desfilou seu talento com todas as nuances cômicas e dramáticas que o papel demandava. Expiei meu pecado de nunca tê-la visto em cena em altíssimo estilo!

Aí a peça acabou e ela, aplaudida de pé, pediu a palavra... Mais uma vez fiquei preocupado: qual seria a sua reação?

Pois é... Bibi pediu desculpas pelo que havia ocorrido no início da peça. Explicou que os ensaios haviam sido feitos com o teatro vazio e que isso prejudicara a modulação da voz.

Que belo exemplo de arte, cênica e de viver, que ela nos deu!

À platéia, já encantada, só restou render-se incondicionalmente a essa grande dama do teatro brasileiro que, ao contrário dos políticos retratados na peça, sempre está disposta a nos dar muito mais do que esperamos.

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