À Beira do Regato

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À BEIRA DO REGATO

 

Publicado nesta página, em 03/02/06.

 

 

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  09 Revista Ceciliana n. 1/2009 Santos SP

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Já eram cinco horas da tarde quando os peões, com todo o cuidado do mundo, colocaram o velho fazendeiro numa das cadeiras de palha trançada que existiam no alpendre da casa principal da propriedade. A viagem de volta da cidade havia sido cansativa e o filho mais novo recolheu-se para descansar um pouco. Os outros dois haviam ficado na cidade, acertando os detalhes para os próximos meses de tratamento.

O AVC havia sido devastador e definitivo! Os médicos acreditavam que a depressão que se seguiu à perda de sua amada esposa, poucos meses antes, era, em grande parte, responsável pelo desenlace. Ele havia perdido os movimentos das pernas, do braço esquerdo e a fala. Apenas o braço direito havia mantido condição suficiente para permitir que escrevesse e, assim, comunicar-se. Assim, na mesa ao lado da cadeira já estavam: caneta, um bloco de papel e uma sineta, para chamar os empregados. No lugar da aguardente “especial”, do alambique da fazenda, um aparelho de chá, para acompanhar os comprimidos da noite.

Uma criada insistiu em sentar ao seu lado, mas ele a dispensou, em gestos e por escrito, junto com um leve sorriso. Não queria ninguém sentado no lugar de sua amada, que ali sempre o acompanhara nas noites calmas, sorvendo a mesma xícara de chá que estava ao seu lado, em meio a animadas conversas sobre o dia a dia, as “artes” e conquistas dos filhos, os negócios da fazenda e novos projetos, que nunca deixaram de fazer juntos.

Eles haviam se conhecido bem jovens, quando um só tinha sonhos e carinho para oferecer ao outro. Isso lhes bastou para unirem suas vidas e partirem em busca de um lugar onde pudessem concretizar seus projetos.

Começaram com um pequeno sítio e muito trabalho, sempre honesto e compartilhado.

A propriedade era, então, pequena, mas tinha um regato onde costumavam banhar-se, namorar sob a frondosa árvore à beira, assistir ao belíssimo pôr-do-sol e sentir a brisa suave da noite envolver seus corpos. Acreditavam que todos os seus filhos haviam sido gerados ali e, como tributo a essa felicidade, plantavam um girassol para cada nascimento...

Com o tempo, prosperaram e criaram seus filhos, como pessoas dignas, alegres e conscientes.

Ele era o homem do campo, comandando camponeses, peões e máquinas. Ela era a responsável pelas finanças e pela educação das crianças. Uma sociedade perfeita permeada por um amor sincero e contagiante. Mas nem só de trabalho e responsabilidade eles viviam: os domingos e feriados eram dias festivos! Todos, inclusive os trabalhadores, reuniam-se para a missa. Depois vinham: a pescaria, brincadeiras, um farto almoço, onde cada um levava a sua especialidade, e, para terminar, modas de viola.

Os filhos cresceram... As terras também! Passavam de onde a vista podia alcançar. Mas o regato ainda era seu lugar preferido. Nem a idade havia diminuído o prazer que ainda sentiam em repetir aquela deliciosa rotina. Só que agora precisavam cavalgar para chegar até lá. Ela montava como uma “valquíria”! Ele sentia um misto de orgulho e desejo ao contemplá-la a galope.

Eles, ingenuamente, acreditavam que aquele era um segredo deles, mas qualquer peão, lavrador ou empregado da casa, quando os via partindo, quais adolescentes, sorria e pensava: “Tá na hora da safadeza!”.

Mas o mesmo coração que não se continha de amor por ele e pelos filhos, a levou, numa noite de sono tranqüilo, deixando-o viúvo, inconsolável, “órfão”, incompleto... Depois do enterro ele nunca mais foi até o regato.

 

Depois do retorno do hospital, a recepção havia sido calorosa, mas ele agora estava no alpendre, sozinho, vendo o sol descer à linha do horizonte...

Seus olhos iam marejar, como sempre ocorria nessa hora, havia meses, mas seus olhos brilharam ao contemplar os cavalos no cercado próximo. Ali estavam apenas os dois que eles usavam em suas “fugidas”.

Ele tomou a caneta, com a agilidade que lhe era possível, e escreveu por algum tempo, após o que soou a sineta. Vários empregados acudiram imediatamente, mas ele apontou apenas para um deles, seu mais fiel e antigo companheiro, dispensando os demais. Quando estavam sós, ele entregou-lhe o papel, que o leu em silêncio.

O peão balançou a cabeça, com cara de espanto e desaprovação, mas ao olhar para o patrão o viu, pela primeira vez em vários meses, com um largo sorriso no rosto.

Os empregados já estavam se recolhendo as suas casas simples, mas confortáveis e sempre alegres. Uma agradável mistura de cheiros, de mato e comida caseira, era trazida pela brisa do início da noite, quando o peão chegou com o cavalo do patrão e um pequeno alforje.

- Mas o senhor não está em condição de cavalgar! Deixe isso para outro dia. – ele ainda insistiu.

O fazendeiro acenou-lhe com outro papel...

“Não há com o que se preocupar. Sente-se e tome um chá comigo, meu amigo!”.

O peão, ainda matutando o que faria para demover o velho fazendeiro de sua idéia, obedeceu.

O recado seguinte foi bem claro: “Ajude-me a montar!”.

Com a expressão mais obediente e matreira do mundo, o peão cumpriu as ordens.

Pelas limitações físicas, ele não tinha firmeza para manter-se sobre a cela, por isso enrolou a alça do alforje na mão boa e abraçou o pescoço do cavalo. Este pareceu sentir aquilo como um humano sentiria o abraço de um velho amigo. Uma leve palmada nas ancas, dado pelo peão, e a lembrança daquela paisagem e hora do dia fez o animal iniciar o galope na direção que nunca havia sido esquecida. No cercado, um outro cavalo – o que era de sua esposa - assanhou-se e, após algumas voltas, saltou com vigor prodigioso, para juntar-se à dupla, como costumavam fazer. Ao passarem entre as casas, algumas pessoas devem ter pensado, inconscientemente: “Ta na hora da safadeza!”.

Do alpendre, o peão olhava aquilo com admiração. Não acreditava no que seus olhos viam! Talvez por isso sua vista estivesse ficando turva...

 

O dia amanheceu...

> Os filhos que estavam na cidade chegaram e estranharam ver o “tio”, maneira carinhosa como chamavam o peão, aboletado numa das caldeiras do alpendre. Acordaram-no e ele, agitado, contou o que havia acontecido.

O filho mais velho, médico, olhou para o recipiente de remédio vazio e para a xícara de chá e sentenciou: - O pai pôs você para dormir com o calmante dele!

Enquanto o peão corria, ainda cambaleante, a buscar a camionete, o irmão mais novo foi acordado. Em poucos minutos os quatro estavam a caminho do regato, pois ninguém tinha dúvida do destino daquela cavalgada.

A primeira coisa que avistaram foram os cavalos que, calmamente, bebiam a água fresca e cristalina. Apearam perto deles.

Mais adiante estavam os quatro girassóis. Cada um reconheceu o seu, bem como o quarto, que seu pai havia plantado sobre a sepultura de sua mãe, ao lado da árvore onde costumavam namorar.

- Mas onde está o pai? – se perguntaram, entreolhando-se.

O peão apontou para um rastro que saía dali e parecia contornar a árvore. Eles o seguiram até encontrar o corpo do pai, já há muito sem vida.

No bolso da camisa o mais novo encontrou um papel, que passou, emocionado a ler:

“Não culpem o ‘tio’ por isso. Ele sempre teve bom coração, mas eu sempre fui mais ladino! Eu só quis voltar a ver o pôr-do-sol com a minha amada, como sempre fazíamos: juntos! Então, resolvi ficar do lado dela e com vocês sempre por perto”.

A expressão no rosto do pai era de uma profunda paz e felicidade. Ao seu lado, o alforje aberto exibia algumas sementes de girassol e uma pequena pá. Foi então que notaram, perto da sepultura, a terra revolvida, que denunciava um plantio recente...

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